As crianças também sofrem

As crianças percebem mais do que os adultos pensam. Mesmo que não expressem a dor da mesma forma, precisam de honestidade, segurança e rotina. Protegê-las da verdade pode causar mais confusão e ansiedade do que a própria notícia.

Explicar a morte por faixa etária

3 a 5 anos

Nesta idade, as crianças não compreendem que a morte é permanente. Podem pensar que a pessoa vai voltar ou que foi "dormir".

Como explicar

  • → Use linguagem simples e concreta
  • → Diga "o corpo parou de funcionar" em vez de "foi dormir"
  • → Repita a informação com paciência
  • → Responda às perguntas com honestidade

O que esperar

  • → Perguntas repetitivas ("Quando volta?")
  • → Regressão (fazer xixi, chupar dedo)
  • → Comportamento normal pouco depois de saber
  • → Medo de separação de outros adultos

6 a 9 anos

Começam a compreender que a morte é permanente, mas podem ter pensamento mágico ("foi culpa minha"). Podem personificar a morte.

Como explicar

  • → Seja honesto e direto
  • → Clarifique que não foi culpa dela
  • → Explique o que aconteceu sem detalhes assustadores
  • → Permita que faça perguntas livremente

O que esperar

  • → Curiosidade sobre aspetos físicos da morte
  • → Preocupação com a própria morte ou dos pais
  • → Dificuldade de concentração na escola
  • → Raiva ou comportamento agressivo

10 a 12 anos

Compreendem a morte de forma semelhante ao adulto. Podem ter dificuldade em expressar emoções por quererem parecer "fortes".

Como ajudar

  • → Encoraje a expressão de emoções
  • → Valide os seus sentimentos
  • → Inclua-os nas decisões sobre rituais
  • → Ofereça formas criativas de recordar (desenhos, cartas)

O que esperar

  • → Oscilação entre querer falar e isolar-se
  • → Preocupação com questões práticas
  • → Comparação com as experiências dos colegas
  • → Questões existenciais sobre a vida

Adolescentes (13-17 anos)

Os adolescentes compreendem plenamente a morte, mas podem reagir de formas intensas e imprevisíveis. O grupo de pares torna-se um apoio importante.

Como ajudar

  • → Respeite a sua necessidade de espaço
  • → Esteja disponível sem forçar conversas
  • → Deixe-os participar nos rituais se quiserem
  • → Atenção a comportamentos de risco

O que esperar

  • → Isolamento ou busca intensa de companhia
  • → Mudanças de humor e irritabilidade
  • → Queda no rendimento escolar
  • → Questionamento de crenças e valores

Sinais de alerta

Quando procurar ajuda profissional para a criança

Conselhos práticos

Manter rotinas

A rotina dá às crianças uma sensação de segurança e normalidade. Mantenha os horários de escola, refeições e atividades o mais possíveis.

  • → Mantenha os horários de dormir e acordar
  • → Continue com atividades extracurriculares
  • → Mantenha as regras habituais

Informar a escola

É importante que a escola saiba o que aconteceu para poder apoiar a criança adequadamente.

  • → Fale com o diretor de turma
  • → Informe o psicólogo escolar
  • → Peça flexibilidade nos prazos
  • → Combine uma forma de contacto se necessário

Recursos de apoio

Apoio profissional para crianças em Portugal

Serviços disponíveis

  • → Psicólogos escolares (SPO) nas escolas públicas
  • → Consultas de psicologia infantil no SNS
  • → Linha SOS Criança: 116 111 (Seg-Sex, 9h-21h)
  • → Ordem dos Psicólogos Portugueses

Livros recomendados

  • → "O livro triste" de Michael Rosen (para crianças)
  • → "A avozinha foi-se embora" (a partir de 4 anos)
  • → "O pato, a morte e a tulipa" de Wolf Erlbruch
  • → "Como falar com as crianças sobre a morte" (para pais)

Lembre-se

As crianças aprendem a lidar com o luto observando os adultos. Mostrar as suas próprias emoções de forma saudável dá-lhes permissão para fazer o mesmo. Chorar à frente deles não é fraqueza; é ensinar-lhes que é normal sentir dor quando perdemos alguém que amamos.

Atividades que ajudam

Estas atividades podem ajudar as crianças a processar as suas emoções e a encontrar formas saudáveis de recordar a pessoa que partiu. Adapte cada atividade à idade e personalidade da criança.

Caixa de memórias

Idade recomendada: Todas as idades

Peça à criança para escolher uma caixa especial e decorá-la. Juntos, selecionem objetos que recordam a pessoa que partiu: fotografias, um lenço, um bilhete, um brinquedo, uma receita favorita. A caixa pode ser aberta sempre que a criança quiser recordar ou sentir-se próxima.

Materiais: Caixa de sapatos ou caixa decorativa, fotografias, objetos pessoais, material de decoração (tintas, autocolantes, purpurinas).

Carta não enviada

Idade recomendada: A partir de 8 anos

Convide a criança a escrever uma carta à pessoa que faleceu. Pode contar-lhe o que tem feito, o que gostava de lhe dizer, ou simplesmente despedir-se. A carta pode ser guardada na caixa de memórias, colocada junto de uma fotografia, ou até solta simbolicamente (num balão, por exemplo).

Materiais: Papel bonito, canetas coloridas, envelope. Opcional: balão de hélio para libertar a carta simbolicamente.

Árvore de pessoas que cuidam de mim

Idade recomendada: A partir de 4 anos

Desenhe uma árvore grande numa folha. Em cada ramo, a criança escreve ou desenha o nome de uma pessoa que cuida dela: pais, avós, tios, professores, amigos. A atividade reforça a noção de que, mesmo com a perda, continua rodeada de pessoas que a amam e protegem.

Materiais: Folha grande (A3 ou cartolina), lápis de cor, canetas de feltro, autocolantes.

Diário de sentimentos

Idade recomendada: A partir de 6 anos

Ofereça um caderno especial à criança, só para ela. Pode escrever, desenhar, colar fotografias, ou simplesmente fazer riscos quando está zangada. Não há regras. O importante é que tenha um espaço privado para exprimir o que sente, sem julgamento.

Materiais: Caderno ou diário, lápis de cor, canetas, cola, tesoura, revistas para recortar.

Dicas para as atividades