Proteção contra burlas após um falecimento
Como identificar fraudes, proteger os dados do falecido e a quem recorrer
Atenção: burlões exploram o luto
Infelizmente, burlões e criminosos visam ativamente famílias em luto, aproveitando-se da vulnerabilidade emocional e da urgência dos procedimentos. Em Portugal, as queixas de fraude relacionadas com falecimentos têm vindo a aumentar. Esta página ajuda-o a identificar e evitar os esquemas mais comuns, proteger os dados do seu familiar falecido e saber a quem denunciar.
Tipos de burlas mais comuns
Falsa herança internacional
Emails ou cartas alegando que o falecido (ou você) herdou milhões de euros de um parente desconhecido no estrangeiro. Pedem dados pessoais e um pagamento adiantado para "libertar os fundos" ou pagar "taxas legais".
- → Nenhuma herança legítima exige pagamento prévio
- → Entidades oficiais nunca contactam por email para heranças
- → Erros ortográficos e urgência são sinais de fraude
Phishing fiscal
Emails ou SMS falsos em nome das "Finanças" (AT), "Segurança Social" ou "IRN", pedindo que clique num link para regularizar a situação fiscal do falecido ou receber um reembolso. O objetivo é roubar credenciais ou dados bancários.
- → A AT nunca pede dados pessoais por email ou SMS
- → Verifique o remetente – domínios falsos imitam os oficiais
- → Em caso de dúvida, aceda diretamente ao Portal das Finanças
Burlas sentimentais (romance scams)
Viúvos e viúvas são alvos preferenciais em redes sociais e apps de encontros. O burlão cria uma relação emocional falsa e, semanas ou meses depois, pede dinheiro para uma "emergência", "viagem" ou "investimento".
- → Desconfie de quem pede dinheiro sem se ter encontrado pessoalmente
- → Faça pesquisa inversa de imagens de perfil
- → Nunca transfira dinheiro para desconhecidos
Falsos cobradores de dívidas
Contactos por telefone, carta ou email alegando que o falecido tinha dívidas pendentes que os herdeiros devem pagar imediatamente. Podem usar nomes de empresas fictícias ou imitar entidades reais.
- → Exija sempre documentação escrita e comprovativo da dívida
- → Verifique na Central de Responsabilidades de Crédito (Banco de Portugal)
- → Herdeiros só respondem por dívidas até ao valor da herança aceite
Roubo de identidade do falecido
Como os criminosos obtêm os dados
O roubo de identidade de pessoas falecidas é um crime em crescimento. Os criminosos utilizam informações publicamente disponíveis para se fazerem passar pelo falecido e obterem benefícios financeiros ilegais.
- → Obituários e esquelas: Publicações em jornais e online contêm nome completo, data de nascimento, morada e nomes de familiares
- → Registos públicos: Certidões de óbito e registos na Conservatória são documentos acessíveis
- → Redes sociais: Perfis não protegidos contêm dados pessoais exploráveis
- → Correio na caixa: Correspondência não recolhida pode conter dados bancários, NIF e outros
O que fazem com a identidade roubada
Com os dados do falecido, os criminosos podem cometer vários tipos de fraude antes que o óbito seja registado em todos os sistemas.
- → Abrir contas bancárias em nome do falecido
- → Pedir créditos ou cartões de crédito
- → Submeter declarações de IRS falsas para obter reembolsos
- → Fazer compras online com dados financeiros comprometidos
- → Contratar serviços de telecomunicações, energia ou seguros
Como prevenir o roubo de identidade
A rapidez é essencial. Quanto mais cedo comunicar o óbito às entidades relevantes, menor a janela de oportunidade para os criminosos.
- → Cancelar o Cartão de Cidadão na Conservatória do Registo Civil
- → Alertar todos os bancos onde o falecido tinha conta
- → Comunicar o óbito às Finanças nos primeiros 30 dias
- → Recolher toda a correspondência da morada do falecido
- → Remover de listas de correio e cancelar subscrições de marketing
- → Limitar informação em obituários – evitar datas de nascimento e moradas completas
Fraudes de funerárias
Práticas abusivas a que deve estar atento
A maioria das agências funerárias em Portugal opera de forma ética e profissional. No entanto, existem casos de práticas abusivas que aproveitam a vulnerabilidade emocional das famílias. Conheça os sinais de alerta:
- → Cobrar serviços não contratados: Adicionar à fatura serviços que não foram solicitados (embalsamamento, flores, esquelas)
- → Preços inflacionados: Cobrar valores muito acima da média sem justificação, especialmente em caixões e urnas
- → Extras sem consentimento: Adicionar tratamentos estéticos, maquilhagem ou produtos de preservação sem autorização
- → Pressão para "upgrades": Insistir em opções mais caras alegando que são necessárias ou mais "dignas"
- → Recusa de dar orçamento escrito: Qualquer empresa legítima deve fornecer orçamento detalhado por escrito
Como se proteger de fraudes funerárias
- Peça sempre orçamento escrito e detalhado antes de autorizar qualquer serviço
- Compare preços de pelo menos 2 a 3 agências funerárias
- Saiba que o subsídio de funeral da Segurança Social cobre até 471,17 EUR (valor indexado ao IAS em 2026)
- Verifique se a funerária tem livro de reclamações disponível
- Não assine nada sob pressão – peça tempo para analisar o orçamento
- Consulte a página Custos de funeral para referência de preços
Como proteger os dados do falecido
Documentos de identificação
Cancele os documentos de identificação o mais rapidamente possível para impedir o uso fraudulento.
- → Cartão de Cidadão: Cancelado automaticamente com o registo do óbito na Conservatória
- → Passaporte: Devolver ao SEF / AIMA ou à Conservatória
- → Carta de condução: Comunicar ao IMT
- → Cartões bancários: Entregar ao banco para destruição
Contas bancárias e financeiras
Notifique imediatamente todas as instituições financeiras do óbito.
- → Bancos: Apresentar certidão de óbito em cada banco
- → Cartões de crédito: Solicitar cancelamento imediato
- → Seguros: Notificar seguradoras (vida, saúde, automóvel)
- → Banco de Portugal: Consultar Central de Responsabilidades de Crédito
Contas digitais e email
Proteja as contas online do falecido para evitar acesso não autorizado.
- → Email: Fazer backup e depois encerrar (Google, Outlook, etc.)
- → Facebook: Pedir memorial ou remoção da conta
- → Instagram, Twitter/X: Solicitar desativação com certidão de óbito
- → LinkedIn: Pedir remoção do perfil via formulário de memorial
Finanças e Segurança Social
Comunique às entidades públicas para bloquear utilizações indevidas do NIF.
- → Finanças (AT): Comunicar óbito nos primeiros 30 dias
- → Segurança Social: Comunicar para cessar prestações e apurar pensões
- → ADSE / subsistema de saúde: Cancelar beneficiário
- → Recenseamento eleitoral: Atualizado automaticamente
Guia completo de legacy digital
Para instruções detalhadas sobre como gerir as contas digitais e presença online do falecido, consulte o nosso guia de Legacy digital.
A quem denunciar
PSP / GNR
As forças de segurança são o primeiro ponto de contacto para denunciar qualquer crime, incluindo burlas e tentativas de fraude.
- → PSP: 218 111 000 (zonas urbanas)
- → GNR: 213 217 000 (zonas rurais)
- → Emergência: 112
- → Pode apresentar queixa online em queixaselectronicas.mai.gov.pt
DECO – Defesa do Consumidor
A associação de defesa do consumidor pode ajudar em casos de práticas comerciais desleais, incluindo fraudes de funerárias e cobradores.
- → Linha de apoio: 213 710 200
- → Online: deco.proteste.pt
- → Apoio jurídico para associados
Banco de Portugal
Para fraudes financeiras, uso indevido de dados bancários ou créditos fraudulentos em nome do falecido.
- → Linha verde: 800 282 882
- → Portal do Cliente Bancário: clientebancario.bportugal.pt
- → Consulte a Central de Responsabilidades de Crédito
CNPD e Portal da Queixa
Para violações de dados pessoais e reclamações gerais sobre empresas.
- → CNPD: cnpd.pt – proteção de dados pessoais (RGPD)
- → Portal da Queixa: portaldaqueixa.com – reclamações públicas
- → Livro de Reclamações Online: livroreclamacoes.pt
Sinais de alerta
Reconheça estes sinais de uma possível burla
- Pressão para agir imediatamente – Burlões criam urgência artificial: "tem de decidir hoje", "o prazo expira em 24 horas"
- Pedidos de dinheiro adiantado – Nenhuma herança, reembolso ou prémio legítimo exige pagamento prévio
- Heranças de parentes desconhecidos – Emails sobre milhões herdados de um "parente longínquo" são sempre fraude
- "Funcionários" a pedir dados pessoais – Entidades públicas (Finanças, Seg. Social, tribunais) nunca pedem NIF, passwords ou dados bancários por telefone, email ou SMS
- Contacto por canais não oficiais – WhatsApp, Facebook Messenger ou SMS de números desconhecidos a tratar de assuntos legais
- Documentos com erros – Cartas com logótipos desfocados, erros ortográficos ou formatação amadora
- Pedido de sigilo – "Não fale com ninguém sobre isto" é um sinal claro de fraude
Regras de ouro para se proteger
Siga estas regras para se manter seguro
- Nunca partilhe NIF, IBAN, dados bancários ou documentos por telefone, email ou mensagem – mesmo que o interlocutor pareça legítimo
- Verifique sempre a identidade de quem o contacta: peça nome completo, departamento e número de referência, depois ligue diretamente para a entidade
- Obtenha tudo por escrito – Qualquer pedido legítimo de uma entidade oficial ou empresa é formalizado por carta ou notificação no portal
- Em caso de dúvida, contacte a entidade diretamente – Use os números de telefone oficiais (não os que lhe foram dados no contacto suspeito)
- Não clique em links de emails suspeitos – Aceda aos portais oficiais digitando o endereço diretamente no navegador
- Fale com alguém de confiança – Antes de tomar qualquer decisão financeira, consulte um familiar, amigo ou advogado
- Guarde provas – Se receber uma tentativa de burla, guarde emails, mensagens, números de telefone e capturas de ecrã para apresentar queixa
Páginas relacionadas
Consulte também os seguintes guias para proteger o espólio e gerir os assuntos do falecido:
- Cancelar contratos – Como rescindir serviços e evitar cobranças indevidas
- Contas bancárias – Como proceder com as contas do falecido
- Legacy digital – Gestão das contas online e presença digital
- Contactos úteis – Números de telefone e websites de todas as entidades